21/04/2017

Escritor nenhum compra


Estava sentada num banquinho qualquer da praia. Jogada desleixadamente fumando um cigarro barato qualquer enquanto parecia tentar, sem resultado fazer anéis de fumaça tão bons quanto os dos anões da Terra Média. Tinha um cabelo cacheado farto em tons dourados e os olhos acinzentados fitavam a imensidão azul do mar. Rosto pequeno, estatura média e uma boca carnuda adornada por um batom vermelho vivo bem delineado contrastando com a pele clara e bochechas rosadas.

Sentei, relutantemente, ao seu lado. Mesmo sem querer tentei sentar-me desleixadamente também para parecer mais sociável e passar mais confiança.

— Oi... – Nenhuma mudança na expressão dela. Nem mesmo um suave levantar de sobrancelhas. - Eu... Sou Vítor.

15/04/2017

O que são Writing Prompts?

Closeup Photo of Blue Pen Tinted Spiral Notepad Placed Beside Pen Die Cast Car and Coffee Cup

Eu amo escrever. Provavelmente é a coisa que mais me deixa feliz — depois de feriados prolongados, claro. Mas uma questão que sempre me irrita é o bloqueio criativo. E me irrita ainda mais ler ou ver dicas sobre criar inspiração para escrever e a maioria se volta para o "combo" ler-sair-música-blá-blá-blá, como se isso já não fosse óbvio o bastante, né? Poxa, e quando você é uma pessoa que sai todos os dias às sete da manhã já ouvindo música e lendo, mas mesmo assim não tem milagre que faça vir alguma ideia para escrever?

É claro que às vezes uma faísca divina me atinge e me vem a loucura na hora de pegar a caneta e escrever. Mas como não é sempre que acontece — e às vezes quando acontece não chega a ser finalizado —, fazia um tempo que eu buscava ideias do que escrever. Sim, algo como caminhos. Iguais os temas de redação que éramos obrigados a fazer na escola. Naquele tempo surgia bem mais efeito ter para onde seguir e resolvi procurar pelo mesmo apoio já velho amigo — ou nem tanto assim.

10/04/2017

Tic, tac, tic...



Eu percebi que a situação estava definhando quando o relógio parecia estar com os ponteiros imóveis. Calmos e silenciosos, a ânsia de vê-los rodar novamente fazia com que eu imaginasse seu ruído em minha cabeça. Tic-tac. Alto, claro e insuportável. Tic-tac. Fazia alguns dias desde que a reclusão em um ambiente tão familiar parecia a decisão certa a se tomar. Os objetos pessoais, a televisão companheira e um gato de pelúcia encharcado de pó desde o último Natal eram parte de um cenário que ainda me agradava. Só uma voz irritante e intermitente que ainda sussurrava meio inaudível que o que eu fazia a mim mesma era errado. As duas últimas visitas ao psicólogo, evitei. Achei desnecessário ir de novo relatar problemas e neuras que ele não sabia como era passá-los, coisas que ele só havia aprendido na teoria e que para mim, não fazia sentido que ele entendesse algo. A primeira semana passou calma, as outras duas foram divertidas, na quarta semana eu não tinha mais ideia do que fazer. Na quinta semana, o relógio parou. Foi como se o próprio tempo tivesse parado, se a vida lá fora houvesse silenciado e minha alma, num corpo já decrépito, ousasse manter-se animando alguém que já desistira da vida. Por um breve momento, eu lembrei da época de escola, do primeiro emprego e o namorado nerd do primeiro semestre de faculdade. Deitada no sofá de tecido preto com manchas de uso, eu olhava para o relógio enquanto sentia o pulsar do peito, ouvia o tic-tac falso em minha mente e um impulso louco de correr desesperada mesmo sem um local específico como destino.