26/03/2017

Pé de vento


Quando Laura passou a pé rente ao meio-fio da praça central, ela sabia que jamais voltaria a ver aquelas ruas de ladrilhos com os mesmos olhos. A igreja de tijolo escuro com os sinos ostentados nas duas torres principais e os vitrais que retratavam cenas bíblicas tinham um lindo efeito multicor sob os raios solares do entardecer. A pequena área de praça dedicada aos brinquedos, com chão de terra batida que quase sempre ficava enlameado em dias de chuva fora responsável por grande parte das suas amizades. Via a si própria, dez anos antes, correndo estabanada em meio aos brinquedos enferrujados. Da cor original só sobrara o velho escorregador vermelho, que também havia guardado os risos de sua mãe, seu pai e seus irmãos. Um só escorregador. Tanta história envolta.

Diminuiu ainda mais a velocidade dos passos para apreciar por mais alguns valiosos segundos o prazer de aspirar aquele ar terroso, úmido e sertanejo. Vislumbrou as serras verdes ao redor, o céu límpido azul turquesa e um pintassilgo teimoso que se arriscara a bater asas naquele sol escaldante. O carro preto já estava parado ao lado da estátua de São José, padroeiro da pequena cidade e responsável pelas badaladas ritmadas das 18 horas de cada dia. A venda do seu Maneco, a padaria da dona Neide, a lan house do Gabriel e o posto de saúde com a enfermeira Carla. Cada casa, cada cor. Sabia exatamente que se ocultava por trás de cada parede da cidade. Sentiria falta disso.

21/03/2017

Filmes que me lembram o outono


Esse ano eu não reclamei tanto do calor como em 2016 - o que obrigatoriamente não significa que não foi tão quente. Todo ano, quando chega em setembro, eu já fico louca esperando por março de novo. Primavera e verão não me agradam em quase nada - a não ser a sensação boa que é sair de casa com um solzinho quente pela manhã. O problema é depois da nove horas ele já está insuportável e eu volto a reclamar. Então, fevereiro ter passado tão rápido foi um susto seguido de um alívio porque chegou o outono. Ainda bem.

Eu vi esse tema de blogagem coletiva no grupo Interative-se e achei que seria bom listar alguns filmes que me lembram o outono. Fato é que alguns dele nem se passam nessa época, mas eu sempre acho que qualquer filme com fotografia mais quente, com cenas em floresta e uma música indie com pegada de uma guitarra ao fundo sempre fica com esse ar. Todos os filmes aqui listado eu vi, então diferente do post 5 filmes que você deve ver em 2017, esses eu recomendo e não quero só relembrá-los pra mim mesma. Ah! Acho que exceto Amélie Poulain, esse post podia também ser intitulado como "filmes que (quase) ninguém viu".

17/03/2017

Vênus em Libra


Há uma parte de mim que se desmancha toda vez que você sorri, a outra parte ignora e não se interessa. Uma parte quer correr para o calor dos teus braços, enquanto a outra prefere se jogar no aconchego do sofá da sala. Uma parte de mim deseja te fazer mimos e cafunés, a outra revira os olhos e quer que tudo isso tenha logo um fim. Do meu eu indeciso, brotou amor, brotou repulsa. Como você teve a ousadia de vir falar comigo, naquele sábado à noite, depois de uma sexta-feira de feriado? Como você veio de voz mansa tentar convencer meu coração mole e persuadir minha alma confusa?

Sabe moço, eu não queria me envolver. Se eu estava num canto escuro de um bar de esquina bebendo um vinho barato, era justamente porque não queria me envolver. E você veio, desbravador de mares, abrindo espaço pelas cadeiras ruidosas, desviou de uma moça de saia curta, quase teve que segurar um rapaz que ultrapassou os limites da bebedeira. Um sorriso maroto de canto de boca, uma camisa com os dois primeiros botões abertos e mangas dobradas. Sai daqui, moço, soou alto e claro em minha mente. Mas você não desistiu, puxou a cadeira pra sentar-se do outro lado da mesa e puxou conversa numa tentativa quase falha de aproximação.